10 de abr de 2011



PERDA DE PESO... E DO "EIXO"



- Gordo sofre, é tudo contra nós, já entramos no jogo perdendo, percebem?
Bruna colocou sua opinião no intervalo da reunião mensal do seu médico (da
qual inclusive não ia há seis meses). Quem a viu falar, viu o retrato da mulher
que com a gastroplastia realizou o sonho de ser magra, de caber no manequim que a sociedade estipula.
Bruna hoje veste 40, tem seu trabalho, uma vida social ativa, voltou a fumar, gosta de tomar seus drinks na noite, conhece pessoas, voltou a usar saínhas curtas, e a não levar "desaforo" para casa. Ela faz o que quer, sem a capa de gordura castradora que a obesidade impunha.
Está alucinada com a "nova vida".
Bruna olha pro espelho com orgulho de si mesma. O que não avisaram a Bruna, é que o espelho só mostra o exterior. Será que Bruna tem o mesmo orgulho da "nova mulher" que a magreza fez nascer? Alguns amigos não a reconhecem mais, dizem que ela surtou. Outros acham o máximo a altivez que ela tem ao entrar num ambiente.
Bruna se surpreende com as cantadas que recebe, mas chora no banheiro quando o celular dela não toca no dia seguinte da noitada.
Bruna trocou o excesso da comida pela escassez de auto-estima. Paradoxo? Não!
O tormento só mudou de nome, mas o endereço continua o mesmo. E o mundo que Bruna escolheu não foi o da saúde, mas foi o da vaidade.
Ao viver num novo corpo, a Bruna "antiga" não se adaptou com a mudança e forçou o surgimento de uma "nova" Bruna, tão artificial quanto o mundo que ela escolheu para si. Ao se libertar do corpo obeso e da mente reprimida, Bruna se aprisionou num modelo de "mulher bem resolvida" que não é real, e nem maduro.
Bruna ainda chorava no banheiro, ainda invejava as amigas que "tinham tudo", ainda buscava caminhos que o corpo esbelto não fez acontecer. Bruna se deslumbrou com o corpo e não cuidou da essência. 
Não cuidava gorda, não cuida magra e a conseqüência é a infelicidade que sente sempre que está sem o bar, sem o almoço de trabalho, sem o cara da boate, sem as amigas da academia, enfim; sozinha.
Se abrir demais para a vida nova que surge ao lado do corpo novo, às vezes é perder a identidade e às vezes é nunca sequer encontrá-la.
É ficar presa num plasma de vaidade e na falsa sensação de que a vida é uma festa. É não saber envelhecer, e aceitar que independente do corpo, o tempo passa para todos, igualmente.
Bruna queria ser alguém que pertence a um momento e uma época passada.
Sua psicóloga disse:
"Que viver é uma coisa, reviver é outra."
"Que recuperar tempo perdido é inviável e doentio."
"Que ser ex-obesa não é ser ex-você mesma."
Um ano depois seu médico ligou para fazer um pedido. Que Bruna palestrasse sobre a mudança que o ex-obeso vive ao se enxergar belo, magro, e aceito na sociedade. Ela aceitou. Preparou sua pauta e foi. Falou pelos 30 minutos que tinha direito. Encantou pessoas com as palavras e o tom de humor que tinha em cada colocação. Emocionou outras tantas ao tocar em pontos que obesos ainda não tem consciência e que os ex-obesos não admitem que fazem.
Acabou sua palestra com a seguinte colocação:
- Todas as escolhas que fazemos na vida, são de nossa inteira responsabilidade, e isto inclui a cirurgia, só que teimamos em esquecer que fomos nós que escolhemos quando damos um passo errado, fugindo então das responsabilidades sobre os erros cometidos. Queremos viver o que o corpo e a alma não necessitam mais ao reviver no lugar de viver. Aproveitem o "presente" recebido ao decidirem pela cirurgia, mas retribuam este presente tratando da saúde que é só o que deve importar.
Foi aplaudida de pé ao término.
Se retirou do auditório com uma leveza que não era física, leveza que não havia sentido ainda nestes 12 meses de gastroplastia.
- Bom ouvir isso, siga em frente, sem desviar-se das metas e destas reais razões que te direcionaram a cirurgia.
- Eu escrevo textos (pomas, crônicas) sobre vários assuntos, e tenho escrito sobre gastroplastia também. Você me permite que eu escreva sobre sua vivência?
- Claro que sim. Marcamos um dia para falar sobre isso. Anote meu telefone. 
Saí dali com as idéias fervilhando e hoje aqui, este texto nasceu. Bruna é um nome fictício de um personagem fictício, mas que caracteriza uma realidade.
É o retrato de grande parte dos ex-obesos que quando se visualizam magros, são tomados pela vaidade extrema, pela vontade de ser que a obesidade nunca permitiu que ele fosse, anulando a essência e o amadurecimento que a vida ensinou. "



*desconheço a autoria* 

8 de abr de 2011


Corpo e mente magros após a redução de estômago


POR FABIANA GONÇALVES

Problemas psicológicos são o lado B das cirurgias de redução de estômago, que podem afetar até 20% dos operados. Essas questões, associadas à imagem corporal, podem ser revertidas com terapia e acompanhamento nutricional.


Quem olha as fotos, de "antes" e "depois", de obesos acha impossível uma pessoa se sentir infeliz após se livrar de dezenas de quilos. As reportagens sobre a operação sempre destacam os casos de sucesso, de reviravolta na vida pessoal, do resgate da auto-estima, da melhora considerável da saúde. Esses são, de fato, os resultados obtidos pela maioria - afinal, depois de muito esforço e privações, a obesidade foi vencida.
No entanto, um levantamento feito pela psicóloga Maria Isabel Rodrigues de Matos, do Ambulatório de Obesidade Mórbida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), SP, mostra que em cerca de 20% dos pacientes que se submeteram à cirurgia bariátrica emergiram problemas psicológicos. O pior desses dados, segundo a especialista, é que os casos tendem a se agravar à medida que o paciente não leva adiante o tratamento com uma equipe multidisciplinar, no pós-cirúrgico.

Os transtornos podem ser provocados pelo medo de comer e engordar ou a não adaptação à nova imagem

"A obesidade é uma doença crônica e deve ser tratada a vida inteira. Não é porque o paciente fez a redução de estômago que o problema acabou. Todo o processo de adaptação ao emagrecimento rápido e ao novo corpo deve ser acompanhado de perto por vários motivos, entre eles para a adaptação à nova imagem corporal", orienta a psicóloga.
"Essa preocupação é grande porque não são poucas as pessoas ansiosas, deprimidas e compulsivas que, se não acompanhadas com atenção, tendem a desenvolver outros transtornos. Os problemas mais comuns são bulimia ou anorexia, compulsão por compras, drogas ou sexo, alcoolismo, dependência de drogas e, no limite, até tentativas de suicídio", justifica a psicóloga.

Evite anorexia e bulimia 

Para Maria Isabel, o medo de voltar a engordar é tão grande que certas pacientes podem desenvolver esses transtornos, justamente depois da fase mais difícil de adaptação à convalescença, aquela em que a perda de peso ocorre mais rapidamente: os três primeiros meses.

Ou seja, mesmo após esse período, continuam a reduzir drasticamente o consumo e ficam anoréxicas. "Outras, que extrapolam nas quantidades, sentem- se culpadas pela comilança e acabam provocando vômito ou diarréia, como forma de expulsar o excesso ingerido. Pronto: até chegar nesse estágio, já desenvolveram a bulimia", explica.
"Sem contar que existem pessoas que não conseguem viver com tamanha privação alimentar. Não acham mais graça na vida, mesmo tendo a consciência de que essa era a única alternativa para ter saúde, e, então, caem em depressão", complementa Maria Isabel.

Sacrifícios insuportáveis 

E não é difícil encontrar pacientes que trocam a comida por outro tipo de compulsão. "Eles substituem o objeto de desejo. Na verdade, o problema tinha começado lá atrás. Antes, eles trocavam a falta de afeto e a ansiedade pela comida. Tinham uma fixação pelo ato de comer, sua rotina girava em torno disso. Quando são operados, ficam privados do seu grande prazer", explica.

"Precisam ir em busca de outra fonte de prazer, que de um modo geral foca nas compras, nos jogos, no sexo ou no álcool", diz a psicóloga. Depois da operação, mudam também as relações sociais, até porque muitas estavam estabelecidas em função da obesidade.
"É bom lembrar que o cirurgião opera o corpo, mas não a cabeça, e alguns pacientes não conseguem suportar tantas mudanças", complementa Daniel Lerario, endocrinologista do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

Privação programada 


Ele explica que, para quem engolia 3 mil calorias/dia, passar a fazer refeições de no máximo 150 g, no início, não é fácil.

Mesmo depois de seis meses, quando o cardápio gira em torno de 1.000 calorias, ainda é um terço do que era consumido antes da operação. "O que não se pode é achar que a cirurgia é mágica. O paciente emagrecerá porque optou por uma privação programada. Nem por isso ficará desnutrido. Isso só ocorre quando a pessoa come apenas bobagens", diz.
Entre os problemas mais comuns, o médico destaca a anemia, principalmente em mulheres, pois o ferro consumido no alimento acaba não sendo absorvido, por causa do fluxo menstrual. "Já a falta de cálcio é comum a homens e mulheres. Porém, em todos esses casos, a alimentação pode ser suplementada com um polivitamínico", explica o endocriologista Daniel Lerario.
Para a psicóloga Maria Isabel, é possível reverter os casos de quem apresenta sintomas de transtornos compulsivos, com acompanhamento psicológico. "Existe tratamento para todos os casos, desde que a pessoa não tenha vergonha de admitir o mal e de procurar ajuda", completa.

Avaliando a personalidade


A psicóloga Maria Isabel Rodrigues de Matos revela o resultado de uma pesquisa baseada em sua tesede mestrado, com pacientes antes da cirurgia bariátrica e que foi divulgada pela Unifesp:

20% da população em geral tem sintomas de depressão; entre os obesos, esse número sobe para 80%
20% da população é composta por ansiosos. Entre os obesos, essa porcentagem sobe para 70%
A preocupação com a imagem corporal faz parte do universo de 35% da população. Entre os obesos, chega a 78%
O Transtorno de Compulsão Alimentar Periódico (TCAP) - quando a pessoa come muito em curto espaço de tempo, ou seja, não tem controle sobre o que come - é uma preocupação para 3% 5% da população. Nos obesos, essa porcentagem atinge 40%
Para a psicóloga, a melhora da auto-estima, por conquistar um novo corpo, deveria ser maior do que a frustração de não poder devorar tudo o que aparece. Mas muitas vezes é preciso eliminar o peso também da cabeça para alcançar esse objetivo.

 "A melhora da auto-estima com o corpo enxuto deve ser maior do que a frustração de não poder devorar tudo o que vê pela frente"