8 de abr de 2011


Corpo e mente magros após a redução de estômago


POR FABIANA GONÇALVES

Problemas psicológicos são o lado B das cirurgias de redução de estômago, que podem afetar até 20% dos operados. Essas questões, associadas à imagem corporal, podem ser revertidas com terapia e acompanhamento nutricional.


Quem olha as fotos, de "antes" e "depois", de obesos acha impossível uma pessoa se sentir infeliz após se livrar de dezenas de quilos. As reportagens sobre a operação sempre destacam os casos de sucesso, de reviravolta na vida pessoal, do resgate da auto-estima, da melhora considerável da saúde. Esses são, de fato, os resultados obtidos pela maioria - afinal, depois de muito esforço e privações, a obesidade foi vencida.
No entanto, um levantamento feito pela psicóloga Maria Isabel Rodrigues de Matos, do Ambulatório de Obesidade Mórbida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), SP, mostra que em cerca de 20% dos pacientes que se submeteram à cirurgia bariátrica emergiram problemas psicológicos. O pior desses dados, segundo a especialista, é que os casos tendem a se agravar à medida que o paciente não leva adiante o tratamento com uma equipe multidisciplinar, no pós-cirúrgico.

Os transtornos podem ser provocados pelo medo de comer e engordar ou a não adaptação à nova imagem

"A obesidade é uma doença crônica e deve ser tratada a vida inteira. Não é porque o paciente fez a redução de estômago que o problema acabou. Todo o processo de adaptação ao emagrecimento rápido e ao novo corpo deve ser acompanhado de perto por vários motivos, entre eles para a adaptação à nova imagem corporal", orienta a psicóloga.
"Essa preocupação é grande porque não são poucas as pessoas ansiosas, deprimidas e compulsivas que, se não acompanhadas com atenção, tendem a desenvolver outros transtornos. Os problemas mais comuns são bulimia ou anorexia, compulsão por compras, drogas ou sexo, alcoolismo, dependência de drogas e, no limite, até tentativas de suicídio", justifica a psicóloga.

Evite anorexia e bulimia 

Para Maria Isabel, o medo de voltar a engordar é tão grande que certas pacientes podem desenvolver esses transtornos, justamente depois da fase mais difícil de adaptação à convalescença, aquela em que a perda de peso ocorre mais rapidamente: os três primeiros meses.

Ou seja, mesmo após esse período, continuam a reduzir drasticamente o consumo e ficam anoréxicas. "Outras, que extrapolam nas quantidades, sentem- se culpadas pela comilança e acabam provocando vômito ou diarréia, como forma de expulsar o excesso ingerido. Pronto: até chegar nesse estágio, já desenvolveram a bulimia", explica.
"Sem contar que existem pessoas que não conseguem viver com tamanha privação alimentar. Não acham mais graça na vida, mesmo tendo a consciência de que essa era a única alternativa para ter saúde, e, então, caem em depressão", complementa Maria Isabel.

Sacrifícios insuportáveis 

E não é difícil encontrar pacientes que trocam a comida por outro tipo de compulsão. "Eles substituem o objeto de desejo. Na verdade, o problema tinha começado lá atrás. Antes, eles trocavam a falta de afeto e a ansiedade pela comida. Tinham uma fixação pelo ato de comer, sua rotina girava em torno disso. Quando são operados, ficam privados do seu grande prazer", explica.

"Precisam ir em busca de outra fonte de prazer, que de um modo geral foca nas compras, nos jogos, no sexo ou no álcool", diz a psicóloga. Depois da operação, mudam também as relações sociais, até porque muitas estavam estabelecidas em função da obesidade.
"É bom lembrar que o cirurgião opera o corpo, mas não a cabeça, e alguns pacientes não conseguem suportar tantas mudanças", complementa Daniel Lerario, endocrinologista do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

Privação programada 


Ele explica que, para quem engolia 3 mil calorias/dia, passar a fazer refeições de no máximo 150 g, no início, não é fácil.

Mesmo depois de seis meses, quando o cardápio gira em torno de 1.000 calorias, ainda é um terço do que era consumido antes da operação. "O que não se pode é achar que a cirurgia é mágica. O paciente emagrecerá porque optou por uma privação programada. Nem por isso ficará desnutrido. Isso só ocorre quando a pessoa come apenas bobagens", diz.
Entre os problemas mais comuns, o médico destaca a anemia, principalmente em mulheres, pois o ferro consumido no alimento acaba não sendo absorvido, por causa do fluxo menstrual. "Já a falta de cálcio é comum a homens e mulheres. Porém, em todos esses casos, a alimentação pode ser suplementada com um polivitamínico", explica o endocriologista Daniel Lerario.
Para a psicóloga Maria Isabel, é possível reverter os casos de quem apresenta sintomas de transtornos compulsivos, com acompanhamento psicológico. "Existe tratamento para todos os casos, desde que a pessoa não tenha vergonha de admitir o mal e de procurar ajuda", completa.

Avaliando a personalidade


A psicóloga Maria Isabel Rodrigues de Matos revela o resultado de uma pesquisa baseada em sua tesede mestrado, com pacientes antes da cirurgia bariátrica e que foi divulgada pela Unifesp:

20% da população em geral tem sintomas de depressão; entre os obesos, esse número sobe para 80%
20% da população é composta por ansiosos. Entre os obesos, essa porcentagem sobe para 70%
A preocupação com a imagem corporal faz parte do universo de 35% da população. Entre os obesos, chega a 78%
O Transtorno de Compulsão Alimentar Periódico (TCAP) - quando a pessoa come muito em curto espaço de tempo, ou seja, não tem controle sobre o que come - é uma preocupação para 3% 5% da população. Nos obesos, essa porcentagem atinge 40%
Para a psicóloga, a melhora da auto-estima, por conquistar um novo corpo, deveria ser maior do que a frustração de não poder devorar tudo o que aparece. Mas muitas vezes é preciso eliminar o peso também da cabeça para alcançar esse objetivo.

 "A melhora da auto-estima com o corpo enxuto deve ser maior do que a frustração de não poder devorar tudo o que vê pela frente" 



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